domingo, 29 de Novembro de 2009

A luz que pela janela entrava era baça o bastante para o pintor se ter de acompanhar de candeias bem acesas.
Lá fora, o mundo estava de cinza azulado. Em cima, azul claro com pitadas de cinza, a cor das nuvens quando seguem em cortejo. Cá em baixo, as poças de água reflectindo o alto, as pitadas de cinza no céu azul. Mais longe, olhando para as curvas da estrada que seguiam vale abaixo, o amarelo dos candeeiros disperso nas margens dos caminhos.
O mundo, lá fora, não importava: por agora, para o pintor, só a tela que se lhe erguia avante os olhos. A sua luta era outra: recuperar o horizonte que, desde há tempos, sempre que buscava lhe fugia.
Foi enquanto neste espaço, após mais uma revisitação gorada, que o pintor começou a chorar. Sentado na cadeira, dorso hirto, um pincel erguido à tela, sentiu uma primeira lágrima fugir aos olhos, percorrer vagarosamente a face e, depois, após um curto aguardar em que não saía nem ficava, despegar do rosto. O pintor, solene, contou esses sete segundos que lhe pareceram entre a lágrima largar de casa e beijar o colo.
À primeira, outras sucederam. Se ao início envergonhadas, logo ganharam garbo, e cadência, e orgulho de jorrar. O pintor, sabendo nada poder fazer, desceu as mãos sobre o colo, palmas abertas para cima, com pincel ainda em guarda, e esperou.
As lágrimas caíam, banhavam as mãos, seguiam levemente pelas palmas, saltavam aos dedos, enclave por enclave, e passavam ao corpo vermelho velho do pincel, até descerem ao chão, já sem se saberem pouco de tinta aguada ou restos últimos de sangue.
Assim como vieram, foram-se.
À torrente sucedeu o embaraço, à cadência a arritmia. Uma última lágrima fugiu aos olhos, percorreu vagarosamente a face e, depois, num adeus dramatúrgico que peça alguma revelou, um curto aguardar em que menos saía que ficava, despegou do rosto, contando o pintor sete segundos entre a lágrima largar de casa e beijar o colo.

Olhou o pintor a janela. O mundo em tons de azul e cinzento, quer lá em cima, quer cá em baixo, o amarelo dos candeeiros que pontilhava as margens da estrada. Pousou o pincel lavado no beiral do cavalete e olhou, olhou até se confundir com a paisagem que mirava. Olhou sempre, sendo ele todo a imagem que lhe surgia, e compreendeu, enfim, chegada a hora das primeiras chuvas de Inverno.
De sorriso sibilino, lembrou então para consigo a fraqueza do homem perante o tempo, tendo de aguardar enquanto as monções que a horas certas e incertas o visitam não partem para outros lugares.

domingo, 22 de Novembro de 2009

Vem, Alexandre, saber a cor das pedras
que o musgo abraça
pelos montes
- como segredos de uma fonte
cuja alma salpica em graça.

Vem, Alexandre, subir ao alto
onde te inunda o horizonte
sem pensar na escarpa que mais grita
a cada passo...
Alexandre! Esse cansaço, essa dor,
o embaraço, o temor
de te não bastar a força
são a tocha alumiante da noite já anunciada.
Vem, Alexandre: por cada vacilo um renovar de confiança.

Uma só rocha, Alexandre!
e serás senhor do mundo.
(- Sem partires de povo em povo pescando homens
que em fileiras
marchem ao rufar de bandeiras
sobre terras outras distendidas. )

Dá-te ao lugar, Alexandre, o coração que abrande.
Deixa o vento cegar-te o olhar,
os ossos dilatarem, o frio devolver
a dor roubada
pelo cansar da ascensão.

…e no vazio sente o despego
perante o ouro azul que o horizonte
oferece.

Estás no alto, Alexandre. Agora sabes:
nem todo o mundo vale o calor de uma lareira.

terça-feira, 10 de Novembro de 2009

justiça

Roubei-me ao mundo um dia,
roubou-me o mundo a noite.

sexta-feira, 6 de Novembro de 2009

Sentam-se no chão o velho e a criança.
O velho chega bonecos, conta histórias, puxa sorrisos.
A criança brilha nos olhos, diz sons ainda não fechados em palavras, deita fora amuos breves.
Estão lado a lado, a criança e o velho: este com o tempo a bater-lhe no rosto, recusando a deixar-se ficar, a cada minuto sentado mais minutos mais novo; aquela a preparar-se para um dia seguir vida fora, cada vez mais velha, por cada minuto a brincar mais minutos que avança.
Lado a lado, aprendem, quer a criança, quer o velho. E têm-se um ao outro.

terça-feira, 3 de Novembro de 2009

Surge o último post quase como uma resposta a este, do Francisco, n'"O Bósforo".

Noite:
a derradeira sombra desce às coisas.

Vendo-se os vultos, escondendo-se os corpos,
nasce o receio.

São homens:
só vendo o anão não temem
a sua sombra de gigante.

Deste banco vejo-os pela rua, lado a lado. Cada um no seu mundo, de mão dada a assinalar que entre si há coisa, muito embora sem falarem e cada um para si pensando
(dizem que mais tarde darão um beijo à passarinho e dirão até amanhã).
Vejo mais: estes outros dois, avó e neto de mão dada em protecção – o avô de jornal entre o braço e o corpo, o neto a esticar a corda quanto possa (há que dar pontapés no ar quão longe quanto possível). Deve vir o rapazinho da escola: as calças vêm já rotas num joelho, a cara vem vermelho (vá dizer-se, para o suadito), e a mochila carrega-a bem.
E estes que por cá passam, um contando com desvelo mistério de alta finança, outro ouvindo bem atento de juízo já a surgir. Cruzam-se com o avó e neto, a conversa pára – dois segundos – e logo recomeça com o ataque ao ponto alto do problema.
Seguem sempre, compenetrados, passam o casal primeiro, e ainda um segundo que agora se senta num banco avermelhado, falando entre sorrisos: ele remexendo umas folhas caídas, ele inventando tema para não ter de a largar.
Basta vê-los para saber que as palavras chegarão sempre. E que, vendo os primeiros, quererão também qualquer coisa a anunciar.
.
Outros haverá: aí, pelas ruas, às manhãs, às tardes, mais nestas que naquelas, errando alegremente além do que este farol alcança. Seguindo com as suas histórias, graças, “Ana…dotas”, inquietudes, seguindo de mãos juntas ou sem dar.
Porque andarão, para onde irão, de onde hajam partido, não importa: enquanto seguirem lado a lado terão qualquer coisa mais.
.
- - -
.
- A humanidade? - interrompe-me a senhora, entretanto aqui sentada, a quem leio o meu esboço. Conhecia-a de vista, depois apalavramos. E de vez em quando por cá, neste banco, vamos falando. Lado a lado. – É assim que o menino vai acabar o texto?
.
- Algo mais – respondo. Espero uns segundos e olho a senhora, sorrindo. – Ter-nos-emos uns aos outros.
.
Originariamente publicado, hoje, no blogue do Jornal-Tribuna.

sábado, 31 de Outubro de 2009

lição de cavalaria

Sem uma pobre Dulcineia,
que podes tu, ó D. Quixote?

quarta-feira, 21 de Outubro de 2009

Vamos aprendendo sempre, com acasos e acasozinhos que se vão vivenciando.
Como, pode ser este o de hoje, nas bibliotecas também se sentir perfume de mulher. Vou fazer-me, espero, bem entender: que homens e mulheres que usam perfume também entram em bibliotecas é dado assente. Mas que (P. i) a fragância de um perfume de mulher (expressão que, desde o filme homónimo, adquiriu alto sentido técnico) também flutua nestes espaços, imiscuindo-se no mundo de ascetismo em torno do qual os livros parecem gravitar, (P. ii) isto é, que haja fragâncias resistindo à, pelo menos aparente, força inodorífera das bibliotecas, que só poupa odores discretos, amarelados, envelhecidos, conscienciosos, (P. iii) e que tudo isto desemboca num muito satisfatório resultado final, (C) é um achado (uma revolução, até).
.
Uma explicação exige-se. Tratar-se-á (faço uso de uma expressão encontrada num livro de direito) , tão-somente, de adequação pelo contraste?
Até pode ser...Mas, cá para mim, essa adequação resulta tão-somente na proba plenissima da nossa submissão (e mantenho a fonte) ao império dos sentidos.

sexta-feira, 9 de Outubro de 2009

"(...) como esse discípulo do rei-filósofo Chanakya que perguntou ao grande homem o que queria ele dizer quando afirmava que uma pessoa pode viver no mundo sem viver, e a quem o filósofo mandou transportar um cântaro cheio de água até ao bordo pelo meio de uma multidão em festa, sem entornar uma única gota, sob pena de morte, pelo que ao regressar o discípulo foi incapaz de descrever as festividades do dia, tendo passado por elas como um cego e com olhos apenas para a bilha que levava à cabeça."
Salman Rushdie, Os Versículos Satânicos

domingo, 4 de Outubro de 2009

Era uma mão de dedos grossos, a ponta das unhas com um resto de preto apanhado algures, uma mão calosa, no comum dos dias suada à superfície, a jeito de limpeza natural que o corpo proporciona, uma mão que estendida era firme, franca, honesta ou, como se diz às vezes, desarmante, uma mão que na sua robustez envergonhava qualquer frágil que, por mais limpa estivesse, se lhe apresentasse.
Era uma mão que estendia o carácter ou era (poderá ser?) a alma em forma de mão.

sexta-feira, 2 de Outubro de 2009

Quem o visse, vislumbrava força única
'Que poder bestial é este?'

Eram duas, duas forças, a sua
e a da inércia.
Fazendo da inércia força, não mais se arrastou inerte.
Veio a inércia, a força, e não mais parou de escrever.

domingo, 27 de Setembro de 2009

A propósito do penúltimo post, falei de uma crítica do DN que me havia irritado (palavra que omiti, em favor de "incomodado"). Hoje, encontrei no blogue aterceiranoite uma reacção bem mais musculada ao dito artigo. A meu ver, vale a pena e ainda contém a remissão para o texto do DN.

eleições

Lá no Povoado, se o dia das eleições já não era de festa, também ainda virara velório. Durante todo um dia, a escola velha ia recebendo os homens e as mulheres (só às vezes de mãos dadas), os filhos pequenos seguindo em escolta, os avós seguindo como uma última guarda da família.
Dia de eleições.
Perguntava a criança
- Pai, posso ir contigo? Posso ver?
Perguntava enquanto olhava para os papéis de letra miúda afixada a porta. Quando fosse mais velho, saberia de cor o candidato de dois, de três, de quatro partidos, e perguntaria
- Pai, o Manuel Horácio da televisão não está aqui nos nomes do Partido dos Trabalhadores...
Agora a pergunta era mais frágil e de fácil resposta,
- Podes entrar, filho, vem comigo
Um olhar cúmplice do presidente da mesa, e lá seguia o rapaz titubeante ao lado do pai, a tentar decorar, para depois lembrar de cor, como fazer isso a que se chama de votar.
Por dia de eleições que era, entrava-se já de boletim de eleitor na mão, apertava-se a mão a quem presidisse à mesa, ou, às senhoras, davam-se dois beijinhos e um sorriso. Mas, se assim faziam muitos, outros iam com cara de caso.
As malhas por que estes se guiam são simples, uma só premissa de onde tudo irradia: ir aos votos assim ao jeito de como se vai ao café. Ali como aqui, há os sorridentes e os sisudos, os compenetrados e os expansivos, os circunspectos e os circenses. A diferença só o pedido, ali o café, aqui o boletim, pois isso de decidir o timoneiro da nau pública era assunto para só pensar no lar: no momento do voto, e no anterior e no que vem, a gente é como sempre foi, nem mais, nem menos.
Por isso, no Povoado, ninguém estranhava quando à entrada das mesas de voto o Zé estendia, resguardado, os rebuçados para uns quantos que já tinha marcados, enquanto piscava o olho. Era brincadeira que já se lhe colara à imagem... Ou quando o Nelo, aproveitando a ocasião, anunciava o que viria no Inverno próximo: uns ranchos que virão à sede (assim chamavam à associação, numa espécie de confusão entre o ser e o estar), um porco bem assadinho, se o tempo permitisse, uns cantares de porta em porta lá para o tempo do Natal.
Nada tinham de extemporâneo tais conversas neste dia, eram rituais daquela terra, o Povoado, em que o dia das eleições, já não sendo festa, ainda não era velório; em que o dia das eleições era dia apenas. Como qualquer outro, em que se entra no café de moeda já na mão.
(Ou, pelo menos, assim parecia.)

sábado, 26 de Setembro de 2009

Incomoda-me de cada vez que vejo o estigma do sucesso que alguns autores têm de carregar, quando a sua obra literária, por boa que seja, parece não resistir ao peso de venderem muito, de ser bem acolhida no tempo em que surgiu.
Incomoda-me, isto, de cada vez que vejo os romances do Sousa Tavares reduzidos ao chavão de "sucesso de vendas", tirando-se daí, e apenas daí, quando apenas por este rótulo se fique, todos os corolários: uns, avessos à massificação (aparente) dos gostos, colocam-se de pé atrás, outros, a contrario, correm à leitura do autor. E o debate sobre bons livros - como me parece que quer o "Equador" e o "Rio das Flores" são (não pretendo, aqui, falar do "No teu deserto") - retrai-se sob essa carapaça de coisa nenhuma, perdendo, porventura, alguns aplausos que acabam por não chegar.
Hoje voltei a sentir isto, ao ler uma crónica no DN, acerca de um livro de Roberto Bolaño (autor que motivou este artigo muito bom, saído no suplemento Actual da passada semana), que tem tido bastante sucesso por lá fora; dizia, ao ler uma crónica bastante renitente e centrada no rótulo - e por aí se ficando - já colado à obra do autor recém-falecido: um novo achado da literatura.
E concluí como com estas brincadeiras, em que se atacam e erguem rótulos sem qualquer sustentação, acabam por fazer da literatura uma brincadeira em que, onde haja uma obra de sucesso, todo o debate se faz em torno dos maiores ou menores adjectivos que se arrolem. Para depois, sei lá, na solidão do lar, se verter uma lágrima no fechar de uma narrativa sobre um homem que não teve sucesso no seu tempo, ou a quem as circunstâncias em que se movia a crítica sua contemporânea nunca deixaram emergir.

quinta-feira, 24 de Setembro de 2009

Espero,
há cento e noventa e três dias,
a mensagem.

Soube aí
(há cento e noventa e três dias):
não virá.

sábado, 19 de Setembro de 2009

Leio:
"Em todas as literaturas, a prosa é posterior ao verso, como a reflexão o é à imaginação. A grega não faz excepção à regra, pois o desnível cronológico entre ambas deve importar em uns dois séculos".
Assim, onde a prosa suplante a poesia, o regresso ao verso é um suave toldar da razão: se, de um lado, o esforço de comunicar, se o verso pretende, ao menos, ser inteligível, é racional, do outro, o mergulho no fundo do que se é - pois a imaginação radica no íntimo de cada um - para dar à luz o verso, traz consigo a inevitabilidade de nublar a razão, de a intelecção só surgir com um tacto que a razão, ainda querendo, não oferece. Sem esquecer que, ao lado do binómio verso/prosa, um outro se ergue, discurso literário/ discurso científico, com analogia procedente. Aliás, a prosa "principia por ser o modo de expressão do pensamento filosófico e científico"; assim, acrescento eu, se apenas prosa científica e verso houvesse, a prosa literária tem corpo da primeira e alma da segunda. Ainda que com claras perdas de objectividade, irmana o autor e os leitores, descobre, oferece, mergulha em pequenos tesouros que à descrição e investigação científicas estão vedados. Favorece um conhecimento mais robusto: haverá certeza maior do que aquela a que chegamos emocionalmente e que a razão não infirmou?
.
Citações: Maria Helena da Rocha Pereira, Estudos de História da Cultura Clássica, I Volume - Cultura Grega, 10ª ed., Lisboa, Fundação Calouste Gulbenkian, 2006, p. 262

quarta-feira, 16 de Setembro de 2009

No filme "Sete anos no Tibete", há uma cena, perto do fim, em que o Dalai Lama revela a Heinrich Harrer, um alpinista alemão com quem privara durante largo tempo, nunca o ter visto como um pai, por ser demasiado informal para isso.
Hoje, enquanto seguia pela rua, ouvi um som difícil de verter em texto mas de todos familiar. Qualquer coisa como um "Ê!", "Eh!", enfim, o som natural que alguém faz quando dentro de um carro, de janela aberta, com o fito de chamar um peão que pelo passeio ande. O som veio acompanhado de um geste de mão em que o polegar se erguia e os restantes se recolhiam.
Naturalmente, estendi o meu polegar para o carro que já havia passado, onde ia o meu instrutor de condução, ainda de polegar em riste. E lembrei-me do "Sete anos no Tibete". Os instrutores de condução, por mais que ensinem, não são professores: são demasiado informais para isso.
.
(Mas, sem ironia, que belo encontro foi!)
- "Ê!"
- "Ê!..."

terça-feira, 15 de Setembro de 2009

incursão

Primeiro a inocência, o jogo reduzido ao fazer entrar a bola na baliza alheia, lado a lado batendo-se uns contra os outros.
Mas todos, ao mesmo tempo, em diferentes tempos, vão crescendo, e o jogo evolui, vira (assim lhe chama algum um dia) “Instituição”, para valer à séria há que ter cinco, sete, onze, quinze de cada lado, se forem quatro, seis, catorze, dezassete, é chatice pela certa, dos jogadores um só pode jogar com as mãos, ou com os pés, ou os pés e com as mãos, com as mãos só pode jogar para a frente, com os pés para a frente e para trás, o campo tem de ter cinquenta metros por vinte, nem mais nem menos, ou outra medida cientificamente apurada, alcançada seguindo um método que de um discurso sobre o método adveio, e a graça de jogar à bola vira esta, o rigor de um jogo que persegue as regras.
E um dia, em tantas regras,tão importante meter a bola em baliza alheia como só poder dar três passos de bola da mão, como não poder tirar a camisola com um golo marcado, como a essência do jogo exigir trinta minutos para cada parte e o tempo só não parar de contar quando a bola saia pela linha final.
Grita-se, ainda sem gritar, e volta-se, volta-se ao início, agora sem inocência "Quero bater-me ao lado dos meus, verter sangue lado a lado, se hora negra assim chegar, Quero marcar golo, quero gritar, quem diz golo diz ensaio, Quero correr quando quiser correr, quando não quiser andar, porque um ao lado corre", agora sem inocência, volta-se ao início, volta-se, retornamos à primeira memória em que o fulcro do jogo guardamos, voltamos ao início, nós, todos, reerguemos a ordem, subjugamos a anarquia, regras, já só queremos as que marquem o jogo, que sirvam o jogo, que não comandem o jogo, já só queremos que o jogo, com regras, às regras presida.

(E lembramos: não há rigor que expie a norma injusta. E lembramos: nem todo o soneto é bom poema. E lembramos: sem norte, não há pontos cardeais, nem colaterais, nem sub-colaterais.)

quarta-feira, 2 de Setembro de 2009

Ficcionando que todos precisamos de heróis, para não nos perdermos no debate do sim e não que redundará, eventualmente, num às vezes sim, às vezes não, o meu herói passou a ser Miguel Strogoff.
-
"Miguel Strogoff era um desses homens que só se dão por vencidos quando a morte vem fulminá-los."(200) Diria eu: que nem pela morte se dá por vencido, simplesmente se vê privado de pensar seja o que for.
-
"Compreende-se de que desencontrados pensamentos não deveria ter ficado possuído o espírito de Miguel Strogoff. Não seria de estranhar, portanto, que ele perdesse toda a esperança em tão apertado lance. Pois não sucedeu assim. Os seus lábios, contraídos pela cólera, murmuraram apenas estas palavras:
- Hei-de chegar por força!" (300)
-
Júlio Verne, Miguel Strogoff, Editores Associados, s.d.

domingo, 30 de Agosto de 2009

As citações abaixo colocadas, do livro Por quem os sinos dobram, foram escolhidas de modo a não adiantar nada de mais para quem queira vir a ler, a não tirar o prazer de ir desfiando a narrativa. Se, por vezes, no Povoado, sito em jeito de remissão pura, desta - apesar da etiqueta - só subsidiariamente o faço. As palavras dispõe-se abaixo.
-
"Do outro lado da estrada, na serração, o fumo saía da chaminé e o vento atirava-o para Anselmo. Os fascistas parecem bem aquecidos, reflectiu o velho; estão no quente e amanhã à noite vamos matá-los. É uma coisa estranha em que não gosto de pensar. Estive a observá-los durante o dia todo. São homens como nós. Estou certo de que se pudesse ir até lá e batesse naquela porta, eles me receberiam; mas têm ordens de exigir e examinar os papéis dos viajantes. A única diferença que existe entre nós são as ordens. Esses homens não são fascistas. Trato-os assim, mas não são. Nunca deveriam ter combatido contra nós, e eu não gosto de pensar em matá-los.
Os que estão naquele posto são gallegos. Ouvi-os falar o dia inteiro. Não podem desertar porque se o fizerem lhes fuzilam as famílias. (...)" (188)
-
"Estás longe do que pensavas na Sierra e em Carabanchel e em Usera - ponderou Jordan. - Corrompemo-nos facilmente. Mas será corrupção ou apenas perda da ingenuidade inicial? E não será assim em tudo o mais? Quem mantém até ao fim aquela castidade de espírito com que os jovens médicos, os jovens sacerdotes e os jovens soldados iniciam geralmente a carreira? Talvez só os padres, porque de contrário têm de mudar de vida. Talvez também os nazis e os comunistas, que se mantêm dentro de uma severa disciplina interior (...)" (231)
-
"Quanto ao cigano não presta na verdade para nada. Nenhum espírito político, nenhuma disciplina; é impossível confiar nele. Mas vou precisar de Rafael amanhã. É estranho encontrar um cigano na guerra. Eles deviam ser dispensados, como os que por uma questão de pensamento objectam contra a guerra. Mas nesta guerra até os objectores conscientes foram obrigados a lutar. A guerra veio e enrolou toda a gente. Sim, desta vez até alcançou os vadios. Agora têm de aguentá-la." (266)
-
"Meu pai era o alcaide da aldeia e um homem de bem. Minha mãe era uma mulher honesta e boa católica. E eles fuzilaram-na juntamente com o meu pai por causa das ideias políticas do meu pai. Vi quando mataram os dois. Meu pai gritou: Viva la República! quando o fuzilaram, de pé, encostado à parede do matadouro da nossa aldeia. A minha mãe de pé encostada à mesma parede gritou: «-Viva o meu marido que era o alcaide desta aldeia!» (...) E isso entrou na minha cabeça como um grito que nunca hei-de esquecer. Porque a minha mãe não era republicana, ela não tinha dito Viva a República, mas apenas viva o meu pai que estava morto, de bruços, a seus pés." (335)
-
"[D]esceram a trincheira pouco profunda atrás da crista da colina, e Andrés sentiu no escuro o fedor dos detritos que os defensores do cume deixavam ao longo da encosta. Não gostava daqueles homens que eram como crianças perigosas; sujos, grosseiros, indisciplinados, bons, afectuosos, ineptos e ignorantes, mas sempre perigosos porque andavam armados. Ele, Andrés, não tinha opiniões políticas e sabia apenas que era pela República. Ouvira muita vez falar estas gentes e achara bonito o que diziam, mas não gostava deles. «Não se chama liberdade isto de não enterrar as porcarias que a gente faz», pensou consigo. - «Não há animal mais livre que o gato, mas nunca deixa de enterrar os seus detritos. O gato é o melhor anarquista. Enquanto eles não aprenderem isso com os gatos não os posso respeitar.»" (359)
-
Ernest Hemingway, Por quem os sinos dobram, Lisboa, Edição "Livros do Brasil", 2003
(Colecção "Dois Mundos")

quinta-feira, 27 de Agosto de 2009

circunstância

Soube contigo que a palavra é mentirosa.
“A geada levou a vinha", "por três vendo, por dois não", "alcatroaram a estrada que sobe o monte", não é destas palavras venais, expediente técnico como outros há, não é destas que por cá falo. Tão arreigadas na seiva desta gente, naturais como o comer ou o dormir, como a asneira que sai num respirar, distinguem-se da palavra emancipada, esta sim, a que releva: dissecada, dividida, classificada, adestrada, deitada a jeito na frase, assim como se apresentam em traje de gala ao dizer-se “estou embevecido”, “tão salutar companhia, a tua”, “tantas idiossincrasias tem este nosso povo”, fazendo de conta que o tesouro está no cofre e não no ouro. Ensinaste-me como traiçoeira é a palavra, a mim que me prostrava perante este meu bezerro de ouro, ensinaste estendendo-me a mão, e como assim sem falar disseste o que só com muito falar puderas,
(a desgraça aí evitada, um corpo que já não cai numa terra abaixo posta)
ensinaste-me estendendo-me um copo de água, sem bucolismos, sem lirismos, só descobrindo eu a sede que tinha depois de a matar, como isto é tão mundano, como isto tanto importa, ensinaste-me com gestos bem escolhidos a detectar a atrofia das palavras, como por mais falássemos tudo seria precário
(assim como os rios são mais que as águas que contêm num dado tempo e lugar, são canais por que a água passa, seja a água ela qual for)
como só importa haver canais por onde as palavras possam jorrar, ao fim o que se diz não depende da palavra que saiu, tudo isso é pouco quando ao gesto comparado.
Por isso, enquanto digo Olá e digo Adeus, enquanto digo Meu amigo e Minha amiga, enquanto digo Fico feliz por passares bem e, sabe-se lá, enquanto digo Tão salutar a tua companhia, sirvo-me da palavra como me serviria de uma mão que se estende, de um copo de água que se oferece, de uma companhia a que se dedica, sirvo-me da palavra sem curar do seu sentido, fugindo à sua traição, à sua mentira, ao feio estigma que se lhe gravou na natureza, sirvo-me da palavra falsa ou esqueço-me que ela existe, esqueço o cofre, procuro o ouro, e consigo então que bem nos consigamos entender, assim como duas crianças que não falam, como dois velhos cansados de falar, como dois amigos que vamos sendo.

sexta-feira, 21 de Agosto de 2009

"Ao fim da tarde o largo perdeu o ar agressivo, é um território de abandono que acaba de cumprir mais uma jornada, percorrido, espezinhado, pelas sombras aliadas da igreja e da muralha. Dentre em breve vai render-se à noite, que é a face comum do universo, aconchegar-se nela, preencher os buracos e as rugas com escuridão. Confundir-se, enfim, com a mesma mancha que iguala outras zonas mais felizes - a estrada e os canteiros, as viçosas hortas."
.
"Por ordem do Engenheiro, tem de se apresentar todas as tardes a Maria das Mercês com o trabalho do dia e saber dela os seus progressos. Assim foi determinado e assim se cumpre para que respeitem os mandamentos de fazer o homem, os quais foram ditados pela experiência dos antigos e são três, a saber: recompensa com prudência, governo com vigilância e castigo com firmeza. Vinho por medida, rédea curta e porrada na garupa."
.
José Cardoso Pires, O Delfim

domingo, 16 de Agosto de 2009

- Escritores é sempre a mesma coisa. Se não são as droguitas, é o álcool, se não é o álcool, são as touradas, as farras, o fumo, enfim, sempre qualquer coisita que os tire do mundo. Olha o Pessoa.
(uma pausa)
- E tu? Se fosses para as droguitas - foi assim que chamaste, não foi? - ou para os gargalos, ou para qualquer outra...coisita, e chegasses a casa efusivo ou trôpego, de garganta seca, a tropeçar na rua, derreado, o que fosse, distinguias, ainda assim, as linhas de uma folha? Nesse estado, custando-te ver-te ao espelho, ainda que nenhum houvesse, sentavas-te numa cadeira a acossar-te, uma cadeira a pedir para a largares? E, conseguindo o improvável, pegavas - enfim! - na caneta, descrevias um céu azul-morno, um sorriso ruguento, uma vela a apagar-se?

sexta-feira, 14 de Agosto de 2009

"Minha amiga,
Um dia depositei este livro nas suas mãos, e a senhora prezou-o como ninguém antes o prezara. Acostumei-me assim a pensar que ele lhe pertencia. Permita-me então que escreva o seu nome, não só no seu exemplar mas em todos os exemplares desta nova edição; que eu escreva:
«As Histórias do Bom Deus pertencem a Ellen Key»
Rainier Maria Rilke
Roma, Abril 1904"
.
"Só agora tomo conhecimento de que a nossa terra também tem uma espécie de associação de artistas. Nasceu há pouco tempo uma necessidade bastante urgente, como é fácil de imaginar, e já há rumores de que «floresce». Quando as associações não sabem de forma alguma a que hão-de dedicar-se, então prosperam; diz-se que devem proceder dessa maneira, para serem uma verdadeira associação."
.
"[N]ão há muito tempo três pintores encontraram-se casualmente numa cidade antiga. É claro que os três pintores não falaram de arte. Pelo menos parecia. Passaram a noite na sala particular duma velha estalagem a contar uns aos outros peripécias de viagens e experiências de todo o tipo (...) Outras pessoas - profanas - entraram na estalagem; os pintores sentiram-se incomodados e levantaram-se. No mesmo instante em que saíam da porta já estavam diferentes. Iam pelo meio da rua, um tanto afastados uns dos outros; nas suas caras havia ainda sinais de riso, essa estranha desordem das feições, mas os olhos, em todos, já estavam graves e alerta. De repente, o que ía no meio deu uma cotovelada ao da direita. Depressa o estendeu ali. Em frente havia uma rua estreita envolta num crepúsculo pálido e morno. A rua subia suavemente, de maneira que se evidenciava em perspectiva e tinha algo de profundamente misterioso e ao mesmo tempo, pelo contrário, algo de familiar. No momento os três pintores deixaram-se arrebatar por esse quadro. Não falaram porque sabiam: uma coisa assim não se pode dizer. Por isso se tinham tornado pintores: porque existem muitas coisas que não são dizíveis."
.
Rainer Maria Rilke, Histórias do Bom Deus
Hoje de manhã, no Pingo Doce, enquanto aguardo o troco de uma compra, ouço uma funcionária, chegada então, dizer a outra, em tom jocoso
- Sabe bem pagar tão pouco
E repete, uma, duas vezes, não recordo. E a outra, levando ao fundo o slogan do supermercado,
- Sabe bem é o pouco que pagam a nós...

segunda-feira, 3 de Agosto de 2009

Por força do enlace entre o acaso e a rotina, acabei por chegar a este texto. Encontra-se numa edição que se refere ao Doutoramento Honoris Causa da Profª Doutora Maria de Lourdes Belchior Pontes pela Faculdade de Letras da Universidade do Porto, em 15 de Maio de 1996. Isto, por si só, não teria nada de mais. Mas é que me lembro, muitas vezes, da parte final deste discurso de agradecimento que agora fica, pois claro, à disposição no Povoado.
.
"Devora-me uma sede de saber, acompanhada da consciência aguda de uma imensa ignorância. Ainda há pouco, ao ler muitos dos textos do volume intitulado Qu'est-ce qu'on ne sait pas (edição da UNESCO) esta consciência me reencaminhou para o modo interrogativo que tem sido o que, dir-se-ia, com mais frequência, tenho conjugado na vida. Uma escassa quase mão-cheia de certezas? O salmista ensinou-me uma delas; recordo que a li em inglês num dia sombrio, na Califórnia, em santa Bárbara: I know nothing about tomorrow except the love of God. Outras certezas encontrei-as admiravelmente expressas na beleza de um texto literário: as coplas por la muerte de su padre de Jorge Manrique. Três vidas nos são concedidas: a terrena cujo termo se concretiza na morte; a da fama, que se perpetua até que a memória dos homens a esquece; e a única duradoira e verdadeira - a da eternidade. Jorge Manrique disse-o admiravelmente:
.
Nuestras vidas son los rios que van dar en la mar
que es el morir.
......
Este mundo es el camino
para el otro que es morada
sin pesar."


domingo, 2 de Agosto de 2009

(estética da saudade)
É um olhar desamparado em cima do planalto, um planalto acossado pelo mar, desde quando, de qual tempo, desde sempre,
e é o homem no café, ali ao canto, de copo ora cá cheio, de copo a esvaziar-se, cumprimentando às vezes, ignorando às mais,
são os pés a saltear as ruas, já desertas, já escuras, andando só por andar,
é a noite já não fria por haver quê em que sonhar.

terça-feira, 28 de Julho de 2009

frémito

As pessoas caminham sem parar, batem os passos em nervoso, procuram o caminho mais rápido entre dois pontos tão avulsos como quaisquer outros; os pais olham os filhos uma vez, uma festinha na cabeça e, duas vezes, dizem adeus, e três, Sai, tenho pressa, e vão, seguem rua fora; os rapazes conversam, falam do dia de hoje, rápido, da noite de logo, curta mesmo acabando em dia, e dos dias que virão, outro nome para o depósito onde se guarda a capa preta.
.
Eu, rapaz, vou olhando, e por mais querendo não percebo.
.
(Mas também ninguém me espera, e não tenho filhos, e sou cego à noite.)

sábado, 25 de Julho de 2009

tellus

Uma última primeira vez
olho o céu e olho o mar.

(talvez
só assim veja além
de rosto e reflexo.
e veja a alma. )

A terra a que me agarro
a que me prendo
a que me abraço.

sábado, 11 de Julho de 2009

todas as vidas se fazem de linhas sempre seguidas, sem consolo, umas atrás das outras, avulsas como os dias são. as linhas, olhai-as uma a uma, não rimam, não cruzam nem emparelham, e a prova é que, quando nos pensamos, há sempre as horas em que "eu fui ali comer uma maçã verde que estava caída ao chão e era redonda porque estava com fome". ainda que com poesia, a vida não é sempre poesia, nem literatura, não é um bom romance, ainda que dos grandotes, porque estes querem-se coesos, e, mesmo se o fosse, chegávamos ao fim e já não sabíamos contar o início.
nós, de cor, só sabemos contar essas vidas, pequeninas, que passam assim pelo mundo com o tamanho de um verso. de tão curtas só lirismo, chegam como sopro de esperança, e o sopro logo se dilui no ar, que é maior e invisível, e a esperança nem é satisfeita, nem corrompida, só se abre a porta, e de porta aberta ficamos ali, nem pé à frente nem pé atrás, como se diz, ficamos "sem quê". abriu, essa vida, a porta. e nós vimos a porta a abrir. e tudo ficou assim.
dizia, essas vidas são como um verso,
cristalinas e depuradas.
onde nos põe a sonhar,
lá se vão.

terça-feira, 7 de Julho de 2009

Se um dia caminhar
será descalço.

terça-feira, 30 de Junho de 2009

sempre há coisas

Disse há uns tempinhos, neste post do Tribuna, que queria escrever um textinho com um determinado poema de Alexandre O'Neill (no post só tem uma parte do poema). Disse, também, ou subentende-se, que já não o queria fazer, porque ter encontrado um texto que o já havia feito. Isto foi o que disse. Faltaram umas coisitas: ou por não ter elementos à minha mão, na altura, ou porque não podia dizer mais.
O conto que referia era "O Azul de uma Pedra Branca", de Jorge Reis-Sá, inserto num livro que a Fnac e a Teorema editaram para comemorar o dia mundial do livro. Um livro de cinco contos (três deles muito bonitos - o referido, um de valter hugo mãe e, crème de la crème, um de Richard Zimmler), numa edição muito agradável (só folhear aquele livro-instrumento dá gosto).
Voltei a encontrar o poema no "Memória de Elefante", de António Lobo Antunes. Se, em Jorge Reis-Sá, aparecem três partes, naquele, aparece apenas "Digo-te adeus, e como um adolescente tropeço de ternura por ti". E fico com a ideia de ter ficado com uma quantidade imensa de referências ao poemita por ver: é inevitável que, prestando-se tanto a ser dito, seja amiúde vertido em texto. Os dois textos tem mais de vinte anos de diferença, a minha idade. E o significado, não obstante o hiato temporal, mantém-se provavelmente o mesmo.
Não vou pôr o poema aqui. Simplesmente, não o quero misturar. Mas veja-se aqui.