A luz que pela janela entrava era baça o bastante para o pintor se ter de acompanhar de candeias bem acesas.
Lá fora, o mundo estava de cinza azulado. Em cima, azul claro com pitadas de cinza, a cor das nuvens quando seguem em cortejo. Cá em baixo, as poças de água reflectindo o alto, as pitadas de cinza no céu azul. Mais longe, olhando para as curvas da estrada que seguiam vale abaixo, o amarelo dos candeeiros disperso nas margens dos caminhos.
O mundo, lá fora, não importava: por agora, para o pintor, só a tela que se lhe erguia avante os olhos. A sua luta era outra: recuperar o horizonte que, desde há tempos, sempre que buscava lhe fugia.
Foi enquanto neste espaço, após mais uma revisitação gorada, que o pintor começou a chorar. Sentado na cadeira, dorso hirto, um pincel erguido à tela, sentiu uma primeira lágrima fugir aos olhos, percorrer vagarosamente a face e, depois, após um curto aguardar em que não saía nem ficava, despegar do rosto. O pintor, solene, contou esses sete segundos que lhe pareceram entre a lágrima largar de casa e beijar o colo.
À primeira, outras sucederam. Se ao início envergonhadas, logo ganharam garbo, e cadência, e orgulho de jorrar. O pintor, sabendo nada poder fazer, desceu as mãos sobre o colo, palmas abertas para cima, com pincel ainda em guarda, e esperou.
As lágrimas caíam, banhavam as mãos, seguiam levemente pelas palmas, saltavam aos dedos, enclave por enclave, e passavam ao corpo vermelho velho do pincel, até descerem ao chão, já sem se saberem pouco de tinta aguada ou restos últimos de sangue.
Assim como vieram, foram-se.
À torrente sucedeu o embaraço, à cadência a arritmia. Uma última lágrima fugiu aos olhos, percorreu vagarosamente a face e, depois, num adeus dramatúrgico que peça alguma revelou, um curto aguardar em que menos saía que ficava, despegou do rosto, contando o pintor sete segundos entre a lágrima largar de casa e beijar o colo.
Olhou o pintor a janela. O mundo em tons de azul e cinzento, quer lá em cima, quer cá em baixo, o amarelo dos candeeiros que pontilhava as margens da estrada. Pousou o pincel lavado no beiral do cavalete e olhou, olhou até se confundir com a paisagem que mirava. Olhou sempre, sendo ele todo a imagem que lhe surgia, e compreendeu, enfim, chegada a hora das primeiras chuvas de Inverno.
De sorriso sibilino, lembrou então para consigo a fraqueza do homem perante o tempo, tendo de aguardar enquanto as monções que a horas certas e incertas o visitam não partem para outros lugares.
domingo, 29 de Novembro de 2009
domingo, 22 de Novembro de 2009
que o musgo abraça
pelos montes
- como segredos de uma fonte
cuja alma salpica em graça.
Vem, Alexandre, subir ao alto
onde te inunda o horizonte
sem pensar na escarpa que mais grita
a cada passo...
Alexandre! Esse cansaço, essa dor,
o embaraço, o temor
de te não bastar a força
são a tocha alumiante da noite já anunciada.
Vem, Alexandre: por cada vacilo um renovar de confiança.
Uma só rocha, Alexandre!
e serás senhor do mundo.
(- Sem partires de povo em povo pescando homens
que em fileiras
marchem ao rufar de bandeiras
sobre terras outras distendidas. )
Dá-te ao lugar, Alexandre, o coração que abrande.
Deixa o vento cegar-te o olhar,
os ossos dilatarem, o frio devolver
a dor roubada
pelo cansar da ascensão.
…e no vazio sente o despego
perante o ouro azul que o horizonte
oferece.
Estás no alto, Alexandre. Agora sabes:
nem todo o mundo vale o calor de uma lareira.
terça-feira, 10 de Novembro de 2009
sexta-feira, 6 de Novembro de 2009
Sentam-se no chão o velho e a criança.
O velho chega bonecos, conta histórias, puxa sorrisos.
A criança brilha nos olhos, diz sons ainda não fechados em palavras, deita fora amuos breves.
Estão lado a lado, a criança e o velho: este com o tempo a bater-lhe no rosto, recusando a deixar-se ficar, a cada minuto sentado mais minutos mais novo; aquela a preparar-se para um dia seguir vida fora, cada vez mais velha, por cada minuto a brincar mais minutos que avança.
Lado a lado, aprendem, quer a criança, quer o velho. E têm-se um ao outro.
terça-feira, 3 de Novembro de 2009
Noite:
a derradeira sombra desce às coisas.
Vendo-se os vultos, escondendo-se os corpos,
nasce o receio.
São homens:
só vendo o anão não temem
a sua sombra de gigante.
(dizem que mais tarde darão um beijo à passarinho e dirão até amanhã).
Vejo mais: estes outros dois, avó e neto de mão dada em protecção – o avô de jornal entre o braço e o corpo, o neto a esticar a corda quanto possa (há que dar pontapés no ar quão longe quanto possível). Deve vir o rapazinho da escola: as calças vêm já rotas num joelho, a cara vem vermelho (vá dizer-se, para o suadito), e a mochila carrega-a bem.
E estes que por cá passam, um contando com desvelo mistério de alta finança, outro ouvindo bem atento de juízo já a surgir. Cruzam-se com o avó e neto, a conversa pára – dois segundos – e logo recomeça com o ataque ao ponto alto do problema.
Seguem sempre, compenetrados, passam o casal primeiro, e ainda um segundo que agora se senta num banco avermelhado, falando entre sorrisos: ele remexendo umas folhas caídas, ele inventando tema para não ter de a largar.
Basta vê-los para saber que as palavras chegarão sempre. E que, vendo os primeiros, quererão também qualquer coisa a anunciar.
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Outros haverá: aí, pelas ruas, às manhãs, às tardes, mais nestas que naquelas, errando alegremente além do que este farol alcança. Seguindo com as suas histórias, graças, “Ana…dotas”, inquietudes, seguindo de mãos juntas ou sem dar.
Porque andarão, para onde irão, de onde hajam partido, não importa: enquanto seguirem lado a lado terão qualquer coisa mais.
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- - -
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- A humanidade? - interrompe-me a senhora, entretanto aqui sentada, a quem leio o meu esboço. Conhecia-a de vista, depois apalavramos. E de vez em quando por cá, neste banco, vamos falando. Lado a lado. – É assim que o menino vai acabar o texto?
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- Algo mais – respondo. Espero uns segundos e olho a senhora, sorrindo. – Ter-nos-emos uns aos outros.
sábado, 31 de Outubro de 2009
quarta-feira, 21 de Outubro de 2009
sexta-feira, 9 de Outubro de 2009
Salman Rushdie, Os Versículos Satânicos
domingo, 4 de Outubro de 2009
sexta-feira, 2 de Outubro de 2009
'Que poder bestial é este?'
Eram duas, duas forças, a sua
e a da inércia.
domingo, 27 de Setembro de 2009
eleições
sábado, 26 de Setembro de 2009
quinta-feira, 24 de Setembro de 2009
sábado, 19 de Setembro de 2009
quarta-feira, 16 de Setembro de 2009
terça-feira, 15 de Setembro de 2009
incursão
Mas todos, ao mesmo tempo, em diferentes tempos, vão crescendo, e o jogo evolui, vira (assim lhe chama algum um dia) “Instituição”, para valer à séria há que ter cinco, sete, onze, quinze de cada lado, se forem quatro, seis, catorze, dezassete, é chatice pela certa, dos jogadores um só pode jogar com as mãos, ou com os pés, ou os pés e com as mãos, com as mãos só pode jogar para a frente, com os pés para a frente e para trás, o campo tem de ter cinquenta metros por vinte, nem mais nem menos, ou outra medida cientificamente apurada, alcançada seguindo um método que de um discurso sobre o método adveio, e a graça de jogar à bola vira esta, o rigor de um jogo que persegue as regras.
E um dia, em tantas regras,tão importante meter a bola em baliza alheia como só poder dar três passos de bola da mão, como não poder tirar a camisola com um golo marcado, como a essência do jogo exigir trinta minutos para cada parte e o tempo só não parar de contar quando a bola saia pela linha final.
Grita-se, ainda sem gritar, e volta-se, volta-se ao início, agora sem inocência "Quero bater-me ao lado dos meus, verter sangue lado a lado, se hora negra assim chegar, Quero marcar golo, quero gritar, quem diz golo diz ensaio, Quero correr quando quiser correr, quando não quiser andar, porque um ao lado corre", agora sem inocência, volta-se ao início, volta-se, retornamos à primeira memória em que o fulcro do jogo guardamos, voltamos ao início, nós, todos, reerguemos a ordem, subjugamos a anarquia, regras, já só queremos as que marquem o jogo, que sirvam o jogo, que não comandem o jogo, já só queremos que o jogo, com regras, às regras presida.
(E lembramos: não há rigor que expie a norma injusta. E lembramos: nem todo o soneto é bom poema. E lembramos: sem norte, não há pontos cardeais, nem colaterais, nem sub-colaterais.)
quarta-feira, 2 de Setembro de 2009
- Hei-de chegar por força!" (300)
domingo, 30 de Agosto de 2009
quinta-feira, 27 de Agosto de 2009
circunstância
Soube contigo que a palavra é mentirosa.
“A geada levou a vinha", "por três vendo, por dois não", "alcatroaram a estrada que sobe o monte", não é destas palavras venais, expediente técnico como outros há, não é destas que por cá falo. Tão arreigadas na seiva desta gente, naturais como o comer ou o dormir, como a asneira que sai num respirar, distinguem-se da palavra emancipada, esta sim, a que releva: dissecada, dividida, classificada, adestrada, deitada a jeito na frase, assim como se apresentam em traje de gala ao dizer-se “estou embevecido”, “tão salutar companhia, a tua”, “tantas idiossincrasias tem este nosso povo”, fazendo de conta que o tesouro está no cofre e não no ouro. Ensinaste-me como traiçoeira é a palavra, a mim que me prostrava perante este meu bezerro de ouro, ensinaste estendendo-me a mão, e como assim sem falar disseste o que só com muito falar puderas,
(a desgraça aí evitada, um corpo que já não cai numa terra abaixo posta)
ensinaste-me estendendo-me um copo de água, sem bucolismos, sem lirismos, só descobrindo eu a sede que tinha depois de a matar, como isto é tão mundano, como isto tanto importa, ensinaste-me com gestos bem escolhidos a detectar a atrofia das palavras, como por mais falássemos tudo seria precário
(assim como os rios são mais que as águas que contêm num dado tempo e lugar, são canais por que a água passa, seja a água ela qual for)
como só importa haver canais por onde as palavras possam jorrar, ao fim o que se diz não depende da palavra que saiu, tudo isso é pouco quando ao gesto comparado.
Por isso, enquanto digo Olá e digo Adeus, enquanto digo Meu amigo e Minha amiga, enquanto digo Fico feliz por passares bem e, sabe-se lá, enquanto digo Tão salutar a tua companhia, sirvo-me da palavra como me serviria de uma mão que se estende, de um copo de água que se oferece, de uma companhia a que se dedica, sirvo-me da palavra sem curar do seu sentido, fugindo à sua traição, à sua mentira, ao feio estigma que se lhe gravou na natureza, sirvo-me da palavra falsa ou esqueço-me que ela existe, esqueço o cofre, procuro o ouro, e consigo então que bem nos consigamos entender, assim como duas crianças que não falam, como dois velhos cansados de falar, como dois amigos que vamos sendo.
sexta-feira, 21 de Agosto de 2009
domingo, 16 de Agosto de 2009
sexta-feira, 14 de Agosto de 2009
- Sabe bem pagar tão pouco
E repete, uma, duas vezes, não recordo. E a outra, levando ao fundo o slogan do supermercado,
- Sabe bem é o pouco que pagam a nós...
segunda-feira, 3 de Agosto de 2009
domingo, 2 de Agosto de 2009
terça-feira, 28 de Julho de 2009
frémito
sábado, 25 de Julho de 2009
tellus
olho o céu e olho o mar.
(talvez
só assim veja além
de rosto e reflexo.
e veja a alma. )
A terra a que me agarro
a que me prendo
a que me abraço.